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Quem trouxe Le Pen à 2ª volta?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.04.17

 

 

Quem trouxe Le Pen à 2ª volta?

Quem financiou a sua campanha?

Quem criou as condições favoráveis à recepção e aceitação da sua mensagem repelente?

 

Financiamento: o foco de luz recai sobre a Rússia. Sem financiamento não teria sido possível montar aquela máquina de atrair revoltados saudosistas.

Condições favoráveis: os políticos convencionais e a própria UE.

Políticos convencionais: as ideologias políticas do séc. XX já não interpretam a realidade actual das vidas concretas. Serviram os interesses das elites políticas, financeiras e económicas e, enquanto houve recursos para distribuir por uma parte da população, aguentaram-se no poder intercalando no governo. Isto já não voltará a funcionar assim.

A UE: falhou em quase tudo no projecto europeu e agarra-se, teimosamente, à cultura financeira, à supremacia da finança sobre a economia. E é aqui que tenho de reconhecer a minha admiração pelo povo grego. Apesar de ter sido tratado pelas instituições europeias de forma inclassificável, escolheu permanecer na UE. E apesar das suas dificuldades económicas, ainda recebeu os refugiados nas suas ilhas e não consta que os queira expulsar. Os franceses que, comparativamente, só foram beliscados pela cultura financeira e pela austeridade, falam em sair da UE.

 

 

 

publicado às 09:44

Não, nem todos somos preconceituosos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 26.03.17

 

 

Uma frase que me incomodou, a propósito dos comentários televisivos sobre o preconceito cultural de Dijsselbloem: Todos somos xenófobos e preconceituosos. Depois de uns mimos sobre os holandeses que não vou repetir.

A sério? Somos todos xenófobos e preconceituosos? Não, nem todos somos xenófobos e preconceituosos.

Dos holandeses nas praias do Alentejo, que prefiro ao Algarve, guardei os sorrisos, a descontracção, a amabilidade. A simplicidade de quem aprecia a vida. E nisso não se distinguem das pessoas comuns de qualquer país europeu. Ou de qualquer região do planeta.

 

O preconceito cultural surge-nos mais frequentemente nas elites e nas instituições. Não nas pessoas comuns. A não ser que lhes repitam, nos discursos oficiais e nos media, que a culpa da austeridade (neste caso específico) é destes e daqueles por isto ou por aquilo.

Dijsselbloem transmite a cultura de uma instituição europeia que, cinicamente, passou a informação errada sobre a austeridade às populações que diz representar.

Dijsselbloem representa, na verdade, os interesses financeiros. De uma Europa que tem a lata de proteger, no seu próprio coração, fugas de capital e evasão fiscal.

É essa a grande mentira e cinismo que Dijsselbloem representa, embrulhada no preconceito cultural e no bullying político: culpabilizar as populações (dos países intervencionados), humilhar as populações (Grécia), e mantê-las no double bind, a aceitar continuar a alimentar a máquina financeira.

 

É esta a descodificação cultural que temos a responsabilidade de promover nos media e nas redes sociais. As pessoas comuns, as que foram sujeitas a esta inconcebível praga cultural, têm direito a respirar de novo e a apreciar a vida.

E os responsáveis europeus terão de se adaptar e depressa, se não querem desmantelar o melhor que a Europa nos pode trazer a todos: paz, segurança, prosperidade. Que só é possível em democracia e colaboração.

Dijselbloem não tem lugar nessa nova cultura europeia, mas tem uma carreira promissora no grande banco onde a crise financeira começou.

 

 

 

publicado às 12:47

Assédio moral contra os países do sul

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.07.16

Gostei de saber ontem, numa reportagem da TVI e numa entrevista a Isabel Moreira na TVI24, que o assédio moral foi recentemente criminalizado e integrado no crime mais amplo da perseguição.

Nesta criminalização já vamos com um atraso de uma década relativamente a outros países europeus, mas isto também se explica culturalmente. Não aturámos pacificamente o assédio moral do anterior governo?, dos discursos do anterior PM?, das conferências de imprensa de Gaspar e de Albuquerque?

Agora assistimos, nós e a Espanha, a uma pressão política ilegítima da CE e do Eurogrupo. A Espanha está em negociações para formar governo, Portugal tem um governo recente.


O assédio moral implica uma perseguição reiterada, é o que temos vindo a sofrer da CE e das intervenções dos comissários e do presidente do Eurogrupo, desde o início do novo governo. 

O assédio moral implica um agressor e uma vítima, uma relação de poder e dependência, força e fragilidade.

O assédio moral tem um objectivo, neste caso é político: um governo conservador na Espanha e uma mudança de governo em Portugal.

  

Esta demonstração de força da CE revela, na realidade, uma fraqueza: vendo-se impotente para lidar com o Brexit, uma ferida aberta no coração da UE, tenta mostrar a sua força onde pode bater, ou seja, nos mais fracos.

Já vimos o que fizeram ao povo grego, apesar do povo grego referendar a vontade de permanecer na UE. A humilhação que lhes foi infligida teve todos os ingredientes do assédio moral. E do double bind, estratégia de manipulação que anula e fragiliza.


Se a CE e o Eurogrupo continuarem nesta perseguição ilegítima, a quem podemos recorrer? Há algum mecanismo que nos possa defender? Exactamente, é este o perigo de estar integrado numa UE que não respeita as regras dos tratados (igualdade) nem tem a noção de equilíbrio, de colaboração e de oportunidade.

Uma comunidade pressupõe ainda a noção de bem comum. Ora, prejudicar Portugal e Espanha, assim como a Grécia, também é prejudicar os restantes países da zona euro.


Talvez o Brexit revele a resposta das populações esquecidas pela centralização do poder e pela globalização que agravou o desequilíbrio na distribuição dos recursos (aumento exponencial das desigualdades sociais).

 

 

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

publicado às 20:18

A afirmação de um governo de esquerda no contexto europeu actual

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.05.16

 

 

Esta semana foi muito rica em surpresas, umas boas outras más.

As boas primeiro:

- o ministro da Educação, apesar de enxovalhado pelos lóbis da Escola ponto, revela-se um verdadeiro gestor político com uma visão ampla e clara da Escola Pública e da Educação;

- o governo, apesar de pressionado por Bruxelas, revela-se um verdadeiro governo com uma estratégia política e económica para o país;

- o PM, apesar das tentativas de o fragilizarem e/ou manipularem psicologicamente, revela-se um líder político com inteligência, maturidade e diplomacia eficaz. Afinal, já se tinha revelado como o negociador.

 

Agora as más:

- a Escola ponto não arreda pé, quer continuar a ser sustentada pelo contribuinte. Tem-se mantido até hoje desviando turmas da Escola Pública, dada a curva descendente demográfica da população estudantil e da emigração de casais em idade fértil. O argumento da sua sustentabilidade financeira não pode, pois, ser considerado, uma vez que já estava a furar a lei. E o argumento da crise social ainda menos, pois em crise social permanente tem vivido a Escola Pública desde Maria de Lurdes Rodrigues até Crato;

- Bruxelas e as suas estranhas personagens desdobram-se em conferências de imprensa tentando manipular e condicionar os cidadãos europeus, desta vez Espanha com eleições à porta, e Portugal, que funciona com um governo de esquerda. O aviso é claro: para ser aceite por Bruxelas, o governo deve ser de direita. Estas personagens perderam a credibilidade política, se é que que alguma vez a tiveram. Não são eleitos por ninguém, ninguém os conhece. Além disso, o seu discurso é medíocre e repetitivo. O poder destas personagens é ilegítimo e, por isso mesmo, perigoso;

- qualquer tentativa de fragilização do PM, neste contexto europeu e nacional, é prejudicial para a Europa em primeiro lugar, pois, com a Itália e a Grécia, somos um exemplo de excepção à regra da tendência da viragem à direita e até de extremismos de direita, e para o país em segundo lugar, pois vamos precisar de toda a margem de manobra política que conseguirmos para enfrentar os obstáculos que Bruxelas nos prepara e os desafios que a economia nos vai colocando à frente.

 

 

De onde se conclui que a afirmação de um governo de esquerda no contexto europeu actual é uma insolência ameaçadora para as personagens da Europa das estrelinhas - CE, Eurogrupo e outros sótãos e caves de Bruxelas - como insolente e ameaçadora é a própria democracia.

Lembram-se do que aconteceu à Grécia e que estas personagens nos fazem questão de lembrar? E apesar das humilhações que sofreu, a Grécia ainda acolheu milhares e milhares de refugiados? É na gestão desta crise humanitária que se vê a cultura e a  fibra de um povo.

No norte e centro da Europa vimos fronteiras a fechar-se. Bruxelas teve a indescritível ideia de pagar à Turquia para receber muitos de volta e os que continuam a vir. Por aqui se vê a cultura e a natureza da Europa política actual.

Espanha é agora o próximo território de ensaio da manipulação de Bruxelas. Dependendo dos resulatdos eleitorais se verá a próxima estratégia.

Daí a importância do governo português se manter intacto e determinado, pois vai precisar de toda a sua legitimidade política para se continuar a afirmar neste contexto adverso. 

 

 

 

 

 

publicado às 10:03

O que os nossos amigos gregos tiveram de suportar para conseguir passar a sua mensagem dentro da suposta união europeia...

Duas eleições e um referendo no espaço de 9 meses.

Um suspense infernal do Eurogrupo até ao último minuto.

Limitação de levantamentos diários no multibanco.

Prensados contra a parede para aceitar a fórmula falhada.

Instabilidade no parlamento, dissidências e clarificação.


A mensagem dos gregos: queremos continuar a pertencer à UE, manter-nos no euro, ter condições de uma economia equilibrada e saudável e de um futuro viável para os nossos filhos e netos.


A fórmula falhada que lhes foi imposta, assim como a todos os países intervencionados e aos outros países da eurozona em geral, considera as variáveis dos gregos impossíveis de contemplar. 

Pertencer à UE e à eurozona não permite uma economia equilibrada e saudável nem um futuro viável.

Pertencer à UE e à eurozona não permite sair da lógica financeira em que a economia serve para a alimentar.

Pertencer à UE e à eurozona não permite flexibilidade que respeite as diferenças e especificidades de cada país.

Pertencer à UE e à eurozona não permite qualquer tipo de negociação (ganha-ganha), só a capitulação (ganha-perde).


Os gregos são hoje a antecipação do que nos espera.

Os seus desafios de Hércules são os desafios que nos esperam.


A mensagem dos gregos está agora mais viva do que nunca: há um povo que acredita ser possível uma outra fórmula que conjuga o euro com crescimento económico equilibrado e sustentável.


Mesmo considerando os constrangimentos que o euro nos impõe, há outras fórmulas. Porque não debatê-las abertamente, saltando por cima das regras absurdas de tratados que aliás nunca foram respeitados? Porque não tentar desenhar e verificar cenários possíveis para os países da eurozona? Em colaboração e não em confronto e imposição? Respeitando as diferenças e especificidades de cada país? Com flexibilidade e rigor e não com rigidez?

 

 

 

 

 

 

publicado às 18:48

Como já disse aqui, a austeridade em nome da estabilidade da eurozona, revelou a fórmula: austeridade para pobres prosperidade para ricos.

Agora, na situação da Grécia, vemos revelada a seguinte fórmula: quem mais insiste na estabilidade é quem provoca a instabilidade. O mesmo é dizer: o obsessivo pelo controle é quem provoca o caos.


O FMI aparece sempre com relatórios tardios. Deve ser por isso que a lista dos países que ficaram melhor depois da sua intervenção seja esta.

Vimos Christine Lagarde a pressionar queremos o nosso dinheiro... a Grécia tem de apresentar mais medidas... e aquela do diálogo com adultos na sala... e agora, quando tudo já se complicou, vem o FMI apresentar um relatório que confirma o que o governo grego pediu? É para tentar compor o que ajudou a estragar?


Quem provoca mais instabilidade, caos e destruiçao? O sistema financeiro, os mercados, e quem defende a sua lógica: a banca, as corporações, os tecnocratas, os políticos, etc. Precisamente os que insistem na estabilidade, no controle, na austeridade.


Este clube utiliza uma argumentação sinuosa e falsa: é a ideologia... não querem cumprir o acordado... não querem fazer reformas...

Falso: não se trata de ideologia nenhuma, é a vida real das pessoas que está em causa.

Falso: o acordado é apenas a imposição do BCE, da CE e do FMI.

Falso: as reformas, as medidas, o ajustamento dirigiu-se à economia e ao trabalho, precisamente o que poderia pagar a dívida. Não se mexeu nos desequilíbrios (incluindo os provocados pelo euro), na grande fuga fiscal, nos paraísos fiscais, incluindo os da Europa, na desregulação dos mercados, na corrupção, na má gestão privada ou pública, precisamente naquilo que condiciona o futuro e que escraviza gerações.


Qual a lógica que irá prevalecer na Europa? A da finança ou a da economia? Vejamos o exemplo da Coreia do Sul.

Este é o debate actual, não é uma questão de ideologia.

 

 

 

 

 

 

publicado às 14:59

Cidadãos europeus: plano B, C e D (d' A Vida na Terra)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.06.15

E de repente perdemos o pé e toda a realidade que nos era familiar surge-nos agora completamente alterada. Vivíamos na ilusão de uma certa previsibilidade. Digo ilusão, porque a incerteza tornou-se a norma na Europa: "os mercados estão nervosos"... "os juros subiram"... "o BCE injectou mais n mil milhões nos bancos"... 

Tudo gira à volta da lógica financeira, mutável e volátil, minuto a minuto.


Para já, UE, CE, BCE, FMI, Eurogrupo, já não serão vistos como entidades competentes e responsáveis para prevenir situações críticas, para aprender com os erros, para negociar e fechar acordos.

Dito de outro modo, os cidadãos europeus perderam a ilusão sobre a capacidade das instituições europeias e internacionais de prevenir a tempo ou agir de forma rápida e eficaz em situações de emergência.


O que aprendemos quando perdemos a ilusão da protecção? Quando descobrimos que as instituições europeias e internacionais se movimentam na lógica financeira e não na economia real? A economia real que é a nossa vida concreta, a nossa sobrevivência, o nosso futuro? Isso mesmo, tentamos encontrar formas viáveis e criativas de sobrevivência.


O primeiro grande desafio: como manter a calma, a reflexão e a sensatez, em tempos de grande receio e incerteza? É que estas capacidades estão na base das melhores decisões.


Reflectir: enquanto cidadãos europeus, estamos todos na mesma plataforma instável. É nossa responsabilidade procurar um plano B, um plano C, e mesmo um plano D.

Com que recursos? Tecnologias de informação e comunicação; rapidez de raciocínio, flexibilidade e criatividade das novas gerações e a nova cultura da colaboração.


Planos B, C e D:


Plano B - é o mais difícil porque se trata de construir sobre ruínas em alguns países e regiões. Economia destruída sem substituição por outra. Classe média na pobreza. Recursos entregues a privados. Na actual situação de emergência da Grécia: pagamento ao FMI dos tais 1,7 mil milhões de euros, o equivalente a uma conta num qualquer paraíso fiscal da Europa. Como as instituições europeias e internacionais não querem ir por aí e aguarda-se o resultado do referendo, há que resolver isso por outro lado. Logo a seguir e dependendo do resultado do referendo: preparar uma fonte de financiamento alternativa, outro tipo de crédito. O mais provável é que este plano B já tenha sido iniciado pelo governo grego.


Plano C - começar a preparar desde já (e este plano já inclui os países mediterrânicos), a possibilidade da saída do euro. Esta saída já devia ter sido preparada, aliás, aos primeiros sinais do fiasco do euro. Aqui as soluções podem mesmo passar por desenhar economias não baseadas na lógica do sistema financeiro, e mesmo relativamente independentes de um sistema que só produziu desequilíbrios que já atingiram o limite do sustentável a todos os níveis.


Plano D - criar uma cultura de colaboração entre países e regiões, propondo soluções viáveis e ajudando a concretizá-las, isto é, passar da lógica das emoções reactivas à construção de novas comunidades inter-países e inter-regiões, úteis e eficazes. As novas gerações já funcionam nesta nova lógica.

 

 

 

 

 

publicado às 13:06

O programa oculto da coligação (d' A Vida na Terra, 5/06)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.06.15

Enquanto no futebol mundial se fervilha com a descoberta (?) da alta corrupção na FIFA, a Europa das estrelinhas começa a inclinar-se como a torre de Pisa. As cabeças visíveis que lideram o projecto europeu revelam-se simples marionetas de um outro projecto que nada tem a ver com o inicial e com aquele que apresentou nas eleições europeias.


Lá como cá, aqui fervilha-se com a mudança de treinador no Benfica e no Sporting, enquanto a coligação que gere actualmente a política nacional apresenta o seu programa eleitoral sem dizer, desta vez, o que vai fazer exactamente. É que da primeira vez ludibriou completamente os eleitores.


Os eleitores mais atentos e experientes já sabem o que a coligação vai fazer na área do trabalho e da segurança social, o núcleo digamos assim, o coração do país, porque se trata da vida das pessoas, a área mais sensível, a área que devia ser mais defendida e acarinhada, como estão a fazer os gregos mesmo na situação de encostados às cordas.


Mas não é apenas no núcleo, no coração do país, que a coligação espeta o estilete (ando a acompanhar as séries da Miss Marple e do Poirot), é nos recursos essenciais: banca, energia, comunicações postais, telecomunicações. Agora esfregam as mãos ao transporte aéreo, ao transporte urbano e à agua.


Alguém tem dúvidas sobre o programa oculto da coligação?


1. Cortes nas pensões;

2. continuação da redução do valor trabalho, isto é, trabalho precário, subemprego, formação/estágios sem perspectivas; 

3. aumento de impostos, taxas, coimas;

4. continuação da privatização dos recursos nacionais;

5. colocar a economia ao serviço da finança, isto é, os cidadãos ao serviço da dívida;

... E a lista de malfeitorias continua. 


Mas não se pense que os socialistas estão muito melhor intencionados. Também querem ir ao coração do país, isso mesmo, à segurança social.

O que fizeram eles do programa Novo Rumo?, o que fizeram eles da unidade em fundo verde e com música inspiradora e que respirava paz entre os homens de boa vontade?, o que fizeram eles de Seguro?

   

E agora? Como votar? Como confiar num projecto e num programa? Como sair desta alternância viciada?

Pois é, falta-nos um projecto novo, mas acima de tudo proposto e gerido por uma nova cultura. Uma cultura de inteligência prática, responsabilidade, colaboração.

É por isso que a minha esperança reside agora nas novas gerações.

 

 

 

 

 

publicado às 10:47

A cultura de violência financeira (d' A Vida na Terra, 19/05)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.05.15

Se alguém acreditou no slogan da propaganda eleitoral europeia "desta vez é diferente", já teve oportunidade de verificar que era mais uma grande mentira. Afinal, não é com vinagre que se apanham moscas (graças a Deus deixei de ser mosca).

Não só não é diferente como o BCE, a CE e o Eurogrupo ganharam novo fôlego no caminho do domínio da finança sobre a economia e os europeus, as tais pessoas do vídeo eleitoral.

Este caminho do domínio da finança está perfeitamente visível na humilhação da Grécia, esse processo abjecto em que Portugal colaborou activamente. Também aqui se verifica não apenas a distorção completa do que prometia a propaganda eleitoral como uma terrível violência contra todo um povo em apuros, as tais pessoas que se prometia ouvir e apoiar. Afinal, para estes tecnocratas quem são os europeus do vídeo eleitoral?


A violência na humilhação da Grécia, pelo BCE, a CE e o Eurogrupo, secundados pelo FMI, vai ter consequências imprevisíveis.

Há muitas formas de violência e esta, a financeira, efectuada à distância, de forma impessoal, fria, metálica, à séc. XXI. é tão destrutiva como as outras. Provocar a exclusão e espalhar a fome, por países da Europa e por novos guetos regionais, enquanto reembolsa os últimos trocos e os juros, é uma forma de violência abjecta.

Mas veja-se como a ministra das finanças de Portugal se comportou quando chegou ao "Olimpo dos Deuses" da nova Europa: perfeitamente enquadrada na cultura de violência financeira.


Uma resposta criativa deu-a uma jornalista que furou a segurança de Mr. Draghi para espalhar confetti sobre a sua "divina"cabeça.

 

 

 

   

 

publicado às 12:26

Por tudo o que temos observado hoje nas notícias, já está identificada para os mais atentos a cultura de base do governo-troika: não há lei que não possamos ultrapassar e a Democracia pode ser desvirtuada na sua regra básica da igualdade e equidade.

Conseguidas estas duas primeiras amolgadelas na Democracia, já é mais fácil para o governo-troika impor a todos os cidadãos os tais cortes que já preparou para lhes aplicar, de forma a encaixar o país no Relatório do FMI.

Alguns cidadãos ainda não perceberam em que situação vulnerável ficará o país se estes gestores políticos e financeiros, de cultura elitista e antidemocrática, se mantiverem muito mais tempo no poder.

Talvez por saberem que em breve, mais propriamente em Outubro, os cidadãos vão perceber a dimensão do filme de terror que os espera, o governo-troika está a trabalhar contra-relógio, mobilizado na destruição dos serviços públicos e na venda a preços baixos dos recursos humanos, dos recursos estratégicos e dos recursos naturais, a grandes grupos económicos e financeiros em transacções preparadas em gabinetes.

 

De tal modo é importante para uma Democracia o acesso a serviços públicos de qualidade, em condições universais e igualitárias, que os vemos agora a ser defendidos em protestos por várias cidades do Brasil.

E de tal modo a Democracia já está no ADN dos europeus, que até a Grécia, com 6 anos de troika e de recessão, 27% de desemprego e na maior vulnerabilidade social, se mantém firme, uma maioria dos cidadãos e parte do governo, na defesa desse símbolo (o último suspiro?) da Democracia: a sua televisão pública.

A importância da Democracia e do exercício da cidadania são, assim, comuns a dois países de diferentes continentes e numa conjuntura económica tão diversa: o Brasil, em pujante crescimento económico, e a Grécia, com a economia de rastos e sob intervenção da troika.

 

A Democracia é a organização política e social mais equilibrada e favorável a uma economia saudável, ao permitir e promover o acesso à Saúde e à Educação de qualidade, de forma universal e igualitária. Por isso o país que for cedendo nestas duas áreas-chave, já comprometeu a sua Democracia, já perdeu a sua margem de manobra, e a seguir o limite é o exercício da cidadania, a sua voz colectiva.

 

Mas também na Turquia os cidadãos resolveram defender a Democracia agora em perigo, a perder terreno passo a passo, a ser desvirtuada pelo autoritarismo, e deram um exemplo cívico e simbólico ao resgatar o espaço público, aqui no seu duplo valor: como espaço colectivo e como símbolo da Democracia. Reparem na prepotência do primeiro-ministro turco em relação aos prazos que dá aos ocupantes do Parque Gezi: dá-lhes um prazo  para domingo quando já decidiu invadir o Parque, com investidas da polícia, na noite anterior, precisamente para os apanhar desprevenidos e vulneráveis. Aliás, outra das estratégias do poder, além de passar por cima da lei, da Democracia e dos cidadãos, e do efeito-surpresa sem respeitar prazos, é o de colocar os cidadãos na posição de agitadores sociais, neste caso, classificando-os como terroristas. Só com estas estratégias do poder já se conseguiram queimar etapas importantes da destruição da Democracia.

 

Por cá, a situação ainda não atingiu esse ponto do Guia do poder autocrático, mas para lá caminha:

- cidadãos no exercício de um direito constitucional, portanto dentro da lei e das regras democráticas, são considerados faltosos e grevistas (e isto dito de forma agressiva pelo ministro Crato que apenas segue o guia de instruções do Relatório do FMI);

- o ministro Maduro veio pronunciar-se sobre reuniões com sindicatos onde não esteve presente e terá amanhã tempo de antena para a propaganda do governo-troika e para debitar mais uma vez como o governo está aberto ao consenso e ao compromisso, e como os sindicatos foram irredutíveis (e tudo isto não tendo estado presente nas reuniões);

- os alunos foram colocados em situação desigual perante a situação de Exame, quebrando-se a regra básica da Democracia da igualdade e equidade;

- a instabilidade e a confusão instalaram-se nas escolas e à porta das escolas (tendo-se verificado algumas irregularidades) num dia de ansiedade para todos os elementos da Escola Pública: alunos, professores e pais;

- o ministro Crato aparece em conferência rápida de imprensa a anunciar que a igualdade da situação de Exame está garantida com a marcação da data de 2 de Julho para os alunos que não o puderam fazer hoje. À pergunta de um jornalista, sabendo o que sabe hoje não está arrependido de não ter aceite a data de dia 20 apontada pelo Colégio Arbitral?, responde categoricamente que não. (Primeiro, o poder nunca se responsabiliza por danos causados, e segundo, provavelmente caberá ao ministro Maduro da propaganda, vir amanhã, na entrevista televisiva, culpar os professores pela instabilidade e confusão, e algumas irregularidades, num dia de ansiedade para todos).

 

Enquanto as atenções dos cidadãos se concentram nas escolas, nos alunos, nos pais e nos professores, o governo-troika soma e segue: coloca aos serviços públicos o prazo de 31 de Julho para apresentarem a lista a abater nas estatísticas, os cortes limpos e rápidos determinados pelo Relatório do FMI. Uma limpeza.

Quando os cidadãos acordarem, e para já acordaram os reformados, os pensionistas e os funcionários públicos, estarão na situação dos gregos: só sentimos a falta de um serviço quando nos é retirado.

 

A Escola Pública será desmantelada até ser uma reserva para alunos que o ensino privado não quer, por lhe estragarem a posição nos rankings. O ensino privado é mais selectivo, sabiam?

 

Exceptuando um ou outro colégio de elite, o ensino privado é financiado no 2º e 3º ciclos pelo contribuinte. Está correcto? Não está.

Como vimos em recentes reportagens, há um grupo que gere colégios explorando os recursos humanos, os professores, em número de turmas e de alunos por turma, e em actividades-extra como pintar paredes do colégio. Auxiliares só um ou dois, multifuncionais, é só mudar a bata e o local. Competir com este negócio é possível? E isto financiado pelo Estado.

Menos gritante a situação dos colégios católicos, mas que ainda assim não deveriam ser financiados pelo Estado. Mas têm do seu lado a figura máxima da Igreja: D. Clemente apelou à compreensão para a situação dos estudantes e referiu-se aos colégios particulares que também têm dificuldades (?) Então e compreensão para a situação dos professores?, e das famílias?, e da prestação de serviços públicos?, e dos cidadãos em geral?

Não são realidades comparáveis. A Igreja falou, portanto, de forma tímida e só a pensar no ensino privado. 

As universidades ficaram em silêncio (?). A Educação não lhes diz respeito? A Escola Pública não lhes diz respeito? Parece que são um mundo à parte.

 

Quando acordarem, os cidadãos vão ver os serviços públicos degradar-se, perder qualidade, e alguns a passar a ser geridos pelos privados.

 

Na Educação, como prevejo, só serão aceites no ensino privado os alunos que não lhes estraguem a média, estão a ver o panorama?

Haverá de novo uma clara fronteira entre ensino de qualidade para uns poucos e ensino de fraca qualidade para uma maioria. Mas não apenas no próprio acesso a uma educação de qualidade, existirão graves desigualdades e desequilíbrios no acesso ao ensino superior. Essa expectativa ficará cada vez mais longe para uma maioria.

Também a actividade profissional de professor será cada vez menos atractiva, assim como a de funcionário público.

Mas os maiores danos far-se-ão sentir na Democracia, no equilíbrio social e na economia. No futuro, portanto.

 

 

Para terminar, só lembrar um outro prazo que o governo híbrido apressou para Setembro, o das eleições autárquicas, dia 29. Estou com curiosidade para ver até que ponto o povo sereno português aguentará a charanga do circo da propaganda eleitoral na rua e nas televisões, quando já estiver com a perspectiva de se ver em Outubro perante mais cortes na sua subsistência, no seu ânimo, no seu futuro. 

Que o mesmo é dizer: não há dinheiro para serviços públicos mas há dinheiro para manter o nº de câmaras municipais, não há dinheiro para juntas de freguesia, postos de CTT e postos de GNR, estruturantes a nível territorial, mas há dinheiro para manter o nº de câmaras municipais, não há dinheiro para a fiscalização da ASAE na segurança alimentar e na saúde pública, mas há dinheiro para manter o nº de câmaras municipais.

Que o mesmo é dizer: a fiscalização das finanças à evasão e fraude fiscal vai incidir sobre os mesmos sectores já massacrados como os cafés (!), os restaurantes (!!), os mecânicos de automóvies (!!!) e agora também os cabeleireiros (!?), ficando de fora a grande evasão fiscal dos profissionais liberais, das grandes empresas, da banca, etc. e da sua criatividade fiscal. Estamos a brincar com os cidadãos?

 

 

 

Anexo 1: finalmente ouvi a opinião de um professor universitário, João César das Neves, no programa Contas Certas da RTPN e pelo que ouvi em relação aos cortes no nº de professores, considerou que é só fazer as contas... com a redução de 25% de alunos no ensino básico e 2º e 3º ciclos. João Ferreira do Amaral lembrou-lhe o secundário que passou a obrigatório, mas o professor universitário defendeu não concordar com essa obrigatoriedade, pois o secundário deveria apenas abranger os que querem ingressar na universidade (!?!) Se esta for a posição das universidades, estamos esclarecidos. João Ferreira do Amaral não partilhou desta posição e considerou positivo o aumento da escolaridade obrigatória para o 12º ano. Quanto ao ingresso ou não no ensino superior, há cursos profissionais equivalentes ao 12º ano.

 

 

Anexo 2: relativamente à dimensão mediática que atingiu o fecho da televisão pública grega, e ainda no programa Contas Certas, achei interessante a opinião de João Ferreira do Amaral que considera ter-se tratado de um teatro político: provavelmente o governo não cortou onde se tinha comprometdo a cortar e resolveu cortar no mais fácil, no que estava mais à mão. Lá como cá, cortes no mais fácil e sempre nos mesmos.

 

 

Anexo 3: procurando manter uma distância emocional saudável em relação a toda a confusão destes últimos dias, este pagamento do subsídio de férias em Novembro (excepto nas autarquias e nas ilhas), cada vez mais me soa como um amortecedor previsto para os funcionários que forem colocados na lista que os serviços receberam e que o governo desmente, pois isso implica que passarão a receber apenas parte do vencimento. Reparem: com as excepções das autarquias e das regiões autónomas, novamente criando-se situações de desigualdade.

 

...

 

 

Anexo 4: Continua a ser preocupante a falta de debate público sério sobre o futuro dos serviços públicos em risco, as falhas no acesso e qualidade da sua prestação (na Saúde estima-se que 25% de idosos não têm acesso a medicamentos, verifica-se um aumento da depressão, de tentativas de suicídio, de morte na meia idade). A Cáritas fala num aumento de 65% de procura de apoio de pessoas da classe média, e muitas delas licenciadas, que querem essencialmente um novo trabalho, e organizou um Congresso sobre a Pobreza no país, de que vai apresentar Relatório, com a presença do ministro Mota Soares e do Presidente. Mas já percebemos que estas questões, que são prioritárias para os cidadãos, vão continuar a rolar nas roldanas da política nacional e da Comunicação Social, debitadas diariamente em estatísticas até entrar no ouvido como uma fatalidade. Portanto, parece-me que um debate sério se deve alargar à sociedade civil, às associações, aos diversos grupos de voluntários, e a iniciativas cívicas que entretanto já começam a surgir. 

 

 

Anexo 5: sobre Economia como mote para o início da campanha eleitoral autárquica (vá lá vá lá, só se estão a antecipar 3 meses, o Erdogan iniciou a dele com quase 1 ano de avanço). O ministro Álvaro bem pode revelar-se culturalmente aberto à revolta dos jovens, e fazer a propaganda do Impulso Jovem e do investimento das PMEs pois os cidadãos já perceberam, pela falta de resultados práticos dos seus programas, que se trata de propaganda. Afinal, já cheira a campanha eleitoral autárquica. E bem pode o Instituto de Emprego debitar 14.000 ofertas de emprego não preenchidas (temos de analisar bem a qualidade das ofertas) para mais um banqueiro nos vir dizer que os portugueses preferem viver de subsídio de desemprego (esquecendo-se que a maioria já estará fora desse apoio). O Congresso do CDS também vai apresentar a Economia (?) como a sua prioridade no próximo Congresso. Mais campanha eleitoral apenas, desta vez no formato dos Ídolos em azul bébé e botox q.b.. Entretanto, na Assembleia da República um deputado do PSD apresenta solenemente um Relatório preliminar sobre as PPPs rodoviárias, que ainda vai ser discutido por mais uma Comissão de Inquérito Parlamentar para que os deputados coninuem a fingir que apresentam resultados que, novamente, e como os cidadãos já perceberam, não vão ter quaisquer consequências criminais. Mais campanha eleitoral, portanto. Se assim não fosse, já se teriam visto mais consequências do BPN, da fraude fiscal, da evasão fiscal, etc. E entretanto o representante do PS foi pedir apoio europeu a partir de 2020 na participação nos subsídios de desemprego de países que ultrapassem o nível de 11% (!?). Que panorama animador da economia europeia Seguro nos vem apresentar? Cabe na cabeça de alguém com responsabilidades de gestão aceitar no seu país níveis de desemprego superiores a 11%? Isso é aceitar à partida o falhanço do país e da Europa! Nem sequer se deveria verbalizar tal coisa!? Mais vale continuar a vender a fórmula do crescimento económico e das medidas amigas da Economia cá e na Europa. E já agora, ajudava saber qual a sua posição relativamente ao futuro dos serviços públicos essenciais, Educação, Saúde, Segurança Social. O que é que acha dos 25% de idosos que não têm acesso a medicamentos? E qual a sua posição clara quanto à destruição da Escola Pública? Marques Mendes sugeriu aos professores deslocar-se a Bruxelas e a Washington. Acha bem? Se pode viajar, porque não vai até lá discutir o Relatório do FMI com a mesma lata e descaramento com que Mexia veio ao Olhos nos Olhos demonstrar que a factura da EDP é a mais baixinha da Europa?

 

 

 

publicado às 17:29


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